Tudo me parecia cinza, esparso e também estranho. E o mesmo acontecia com os dias, com as músicas, com a sua face iluminada em um filme noir clássico e impecável. Também as estrelas, o céu sufocante e infinito, o amor que nos aprisiona debaixo das principais constelações, anjos e Beethoven à parte.
Eu via tudo isso e tudo isso me parecia cinza, eu pensava, isso também está dentro de mim, enquanto eu caminho soturno pelos bares e avenidas, respiro, transbordo cambaleante pela superficialidade das coisas.

domingo, junho 24

Nossas angústias de Hollywood

  É  imprescindível que você saiba e não se esqueça nunca que eu não fui sempre assim: cínica, sarcástiga e egoísta. Neurótica aconteceu no “entre”, durante tudo que eu era e tudo que eu me tornei.

  A questão Bárbara, é que às vezes o papel não é suficiente. Eu sei que eu sou um pouco exigente com as pessoas, com a verdade, com a minha patologia, com o meu amor que é meio controlador e cheio de rédeas. Eu sei também que eu sou megalomaníaca e mesquinha, pensando sempre em mim, no meu escudo, nas minhas vontades cheias de quero-quero e bate-o-pé.

   Eu confesso que sou exigente com tudo e escrever não é uma excessão. Também não funciona, também não tira o nó da garganta, também não cura a vontade de entrega, de dormir um sono eterno ou me atirar do vigésimo quinto andar só porque o filme é de drama e hoje é domingo à noite. Não me entenda mal, eu fico bem sozinha, o problema é que eu ainda não aprendi a lidar com a solidão. Essas coisas triviais e que nunca se tornam clichês, a gente enlouquece com coisas tão bestas e simples. Eu continuo muito humana.

  O que eu quero dizer é que nem os papéis, nem os braços, nem mesmo as conexões e a compreensão, nada, nunca vai ser o suficiente. Inclusive eu, você e o amor em si. Mesmo que seja assim: intenso e quente, feito seus cigarros doces Hollywood.

  A gente chora dentro de um abraço, às oito da manhã e finge que sorri, esquece de tudo, tem outros papos. Você até paquera alguém em um bar decadente perto da faculdade. E eu fico assim, só de longe, me sentindo muito impotente e cheia de medo.

  Eu sei que eu sou medrosa pra caralho e exagero quase sempre, mas é que às vezes Bárbara, assistir o filme repetidamente dói. Dói como da primeira vez.

É como eu te disse, ainda nesta tarde, nas nossas conversas pelas beirada do superficial, quando na verdade somos mais profundos do que supomos: eu só posso assistir.

  A vida é assim mesmo, meio boca livre, meio trágica, uma putaria sem fim de esconde-esconde, dramas familiares e preconceitos hereditários. Porque no fim, nem todo mundo é capaz de amar. E você sabe, teve esse puto azar de nascer em um janeiro de capricórnio, de se entregar, de não ter minhas rédeas, de se jogar de penhascos, de supostamente ter essa obrigação em conquistar tudo e todos. E de repente te negam amor, te viram as costas, existem traições ainda. E eu só consigo pensar, que medo, que medo filho-da-puta por você.

  E novamente essa solidão que me empurraram e não sei lidar. Também não sei viver. É preciso dicionário, mais vinte anos, escola-para-vida, traduções e muita compreensão. Em contrapartida nunca fui boa em aceitar esses sentimentos. Quero outra coisa. Isso também não serve. Também não me acalma. Não conforta. Não sei ser leve e não quero esquecer. Entendeu? Eu não sei andar sem olhar para trás.

  Seu amor, eu imagino, deve morar na zona sul da capital. E você tem que enganar a vida pelas esquinas de um bar ou de uma festa de fim de ano. Só porque a história tem seus horários, só porque a merda da mamãe deve ser ariana e controladora como eu. Só porque o mundo ainda não está preparado para a sua intensidade. Ao mesmo tempo eu não consigo entender. Parece que só é real enquanto dói. Parece que só vale a pena se alguém chegar perto o suficiente para me partir em dois.

  Minha querida amiga, continuo amadora em tudo e as palavras ainda me parecem pequenas demais. Pequenas perto de toda aquela energia e proteção que você merecia - merece - e que eu quero te dar. A minha única sacada na vida foi ter entendido o que era necessário para amar. Também não esqueço do vinho, dos cigarros, da solidão que foi fundamental para aceitar as esperas. Em contrapartida, cortei muita gente da minha vida. E quando eu quero, hoje eu arrumo as malas.

  Porque na verdade nós não passamos de vítimas. Nós somos vítimas de nossos próprios sonhos. E não há nada que possamos fazer. Continuamos pequenos, insignificantes diante de tantas escolhas, tantas possibilidades, tanta gente interessante e melhor do que nós duas.

  É como eu me encontro: de onde é que nós tiramos força e conseguimos escolher os caminhos, a enfrentar os pais, a dizer adeus? Quando e com que idade eu ou você pegamos o lápis e nos decidimos pelo caminho de escrever que não tem volta, cuspimos diante de tanta hipocrisia, tanta crueldade, tanta caretice, meu Deus. Como é que a gente foge disso tudo e encontra Paris no meio dessa cidade caótica de sol&chuva e que tem mais de um milhão de habitantes e ainda assim, todo mundo se conhece?

  Como é que a gente se esconde? Como é que a gente chora sem ter medo de ser interrogado? Eu também não sei. Meu peito parece ficar azul nesses momentos de iluminação. Eu assisto passiva essas dores de parto, de ausências, de amores predestinados e de gente horrível que não tem motivo nenhum para se lamentar. Não aprenderam a chorar na vida, no mínimo.

  Aí eu debocho. Tiro sarro com juventude burra, garotas iludidas, Caio Fernando Abreu e corações perdidos pelo universo. Apesar de tudo compreendo muito mais o sofrimento e a compaixão. E o nosso papel em sofrer e esperar. Ao mesmo tempo, me sinto mais amarga. Mais esperta. Mais conectada com a mulher que um dia eu devo ser.

  Eu penso: Meu Deus, já sofri tudo que deveria sofrer para me tornar enfim, uma mulher madura e experiente? E eu quase escuto o ruído das asas de um pássaro. Ou até mesmo vejo um, descendo em queda livre pelo céu quadrado na minha janela. É o que tritura meus ossos e me faz gemer de dor mais uma vez: enquanto o meu céu for o quadrado da minha janela, ainda há pelo que sofrer.

  E sei: não sou livre, meu Deus. Eu nunca serei.

  Só sei que um dia a gente se encontra, descobre, compreende a vida. Ou encontra as chaves. Repito que eu não sei. Mas você, eu desconfio que acaba se jogando do meu vigésimo quinto andar: não porque é domingo, o filme é triste ou você não suporta a dor.

 Eu suspeito que você já nasceu sabendo voar.

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