Tudo me parecia cinza, esparso e também estranho. E o mesmo acontecia com os dias, com as músicas, com a sua face iluminada em um filme noir clássico e impecável. Também as estrelas, o céu sufocante e infinito, o amor que nos aprisiona debaixo das principais constelações, anjos e Beethoven à parte.
Eu via tudo isso e tudo isso me parecia cinza, eu pensava, isso também está dentro de mim, enquanto eu caminho soturno pelos bares e avenidas, respiro, transbordo cambaleante pela superficialidade das coisas.

domingo, dezembro 11

Onde Renoir bebia e pintava nossas tristezas

Eu sei, eu sei. Você já me disse de todas as formas possíveis que me ama e eu sou tudo. Já sei que você gosta de como eu olho de lado e meu jeito cínico e pessimista de encarar a vida. Mas olha, presta atenção: nada disso sou eu. É só a vida que dá um jeito de cuidar de todo mundo. É o jeito de sobreviver, de continuar em pé com o dedo apontado na cara de qualquer ameaça à minha individualidade e dor que eu protejo com tanto cuidado e atenção.

Sei que você admira a minha patologia e a maneira suicida que me entrego, que estendo os pulsos e arranho a pele branca que pulsa o que me gritam há anos. São meus golpes, my dear. É tudo fachada essa minha cara séria e de brava.

Não acredita nas minhas palavras sujas, no meu jeito de falar alto e no modo como eu maltrato o chão tentando cavar meus buracos. Só o que é possível ver é a poeira que sobe feito arena de tourada. A verdade é que o meu patamar cede nesses momentos e eu me sinto descalça, baby. Descalça. Entende tudo o que eu digo? Não, não presta atenção no desenho da minha boca e como eu tremo agora em palavras porque eu simplesmente não consigo fazer com que me entendam ou me escutem, ou os dois.

Eu continuo passando pelas portas um segundo antes do fim do mundo, ainda continuo cheia das malditas esperas. No domingo à noite, eu ainda vou me encolher no chão da sala, carregada de prosecco e com Montmartre na cabeça, ainda vou tentar soprar o vento frio e vou ser espancada de volta, ainda vou chorar por tudo que é passado e não é passado, ainda vou pensar em alguém que me machucou, em alguma parte do corpo, e que eu sinto como se fossem dores de ontem.

Desenho na madeira minhas lágrimas que tentam aplacar a angustia de dentro, ouvindo no fundo do quarto a promessa de um lugar where the stolen roses grow e onde é possível esquecer o que não pode ser esquecido.

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